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Beiju em vez do matza da Páscoa
ENTREVISTA » TANIA KAUFMAN
Muitos condenados ao exílio no Novo Mundo, os judeus convertidos em cristãos-novos se viram obrigados a adaptar hábitos alimentares rigidamenete construídos em preceitos morais e religiosos no Brasil. Escamotear a alimentação era uma forma de não se denunciar ao Tribunal do Santo Ofício durante a repressão religiosa da colônia portuguesa. Esses e outros aspectos foram tratados pelos autores Beatriz Schvartz, Daniel Breda e Tânia Kaufman no recém-lançado A cultura alimentar judaica em Pernambuco. Organizadora do volume, Kaufman conversou com Bruno Albertim.
JC – Durante a repressão do período colonial, que elementos os judeus se viram obrigados a utilizar para escamotear sua tradição culinária?
TANIA KAUFMAN – Era muito silenciosa a prática da preparação dos alimentos. Silenciosa, mas também denunciadora. A comida judaica não era preparada em banha, em gordura animal, mas no azeite. Aquele cheiro chamava a atenção. O Tribunal do Santo Ofício distribuía um manual para que se identificasse os judeus, sobretudo através do que eles comiam. Na sexta-feira, eles usavam uma panelada, carnes, grãos, como a nossa feijoada, por exemplo.
JC – Houve um sincretismo culinário, ou seja, novos pratos surgiram a partir do encontro das tradições judaicas com ingredientes e técnicas pernambucanas?
TANIA KAUFMAN – Lá em Portugal e na Espanha, esse prato ou panelada era preparado com grãos-de-bico. Aqui, como o grão-de-bico não era ainda tão fácil, se usava feijão. Hoje, ele é feito com feijões e grãos-de-bico, vários elementos.
JC – Quais os principais tabus?
TANIA KAUFMAN – Os animais que podiam ser abatidos eram os que tinham a pata fendida e ruminavam. O coelho e o porco têm pata fundida, mas não ruminam. Havia uma simbologia associada entre o fato de ruminar e a capacidade de reflexão. Aves, só as que não fossem predadoras. A galinha e o ganso eram apropriados. Os peixes, sim, todos os de escama eram apropriados. Os de couro, não.
JC – Qual a lógica desses tabus?
TANIA KAUFMAN – Essa lógica pode ser discutida por vários aspectos. O religioso, por exemplo. Ou ainda médico: evitar alimentos tóxicos. Os animais associados à pureza são os mais desejados. Na Páscoa judaica, não se come pão fermentado. Na época, o alimento que substituiu o pão fermentado foi o beiju indígena. Ele foi muito usado para substituir o matza da Páscoa.
JC – Era uma maneira de não se denunciar, portanto?
TANIA KAUFMAN – Se eles fabricassem essa bolacha não fermentada, se denunciariam, de fato.
JC – Havia alimentos diferentes nos espaços públicos e privados?
TANIA KAUFMAN – Havia passagens, durante as denúncias, relatando que eles, para fingir que eram cristãos, matavam o porco, levavam a carne, mas não comiam.
JC – Personagens históricos, como Branca Dias, acabaram por se denunciar através dos hábitos alimentares, sim?
TANIA KAUFMAN – No livro, houve casos de denúncia. Branca Dias, por exemplo, guardava as velas do shabat, não comia porco nem peixe com couro, tinha o hábito de preparo das paneladas, do shabat. Tudo isso foi usado como elemento de denúncia contra ela.
JC – Houve liberdade alimentar durante o período holandês?
TANIA KAUFMAN – Sim. Esse capítulo foi escrito por Daniel Breda. As restrições eram quanto à disponibilidade ou não de certos alimentos. Mas não religiosas.
Fonte: Jornal do Commercio

