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Um diálogo entre primos
O livro revela esse desejo de reler e reescrever histórias,apontando para um futuro em que existe espaço para imaginação e diálogo.
Descendentes de povos apegados à narrativa, 20 autores participam da coletânea de contos “Primos: histórias da herança árabe e judaica” (Record). Convocados pelas escritoras Adriana Armony e Tatiana Salem Levy, organizadoras da obra, nomes como Moacyr Scliar, Salim Miguel, Fabrício Carpinejar e Alberto Mussa assinalam, nas histórias, vínculo pronunciado ou tímido com as tradições desses povos do Oriente Médio. Assim, tomam as 300 páginas referências ao Holocausto e ao cenário de conflitos da região, mas também a aspectos da cultura, como a gastronomia. De ascendência judaica, Tatiana traz no seu livro “A chave de casa”, com o qual arrebatou o Prêmio São Paulo de Literatura 2008, na categoria autor estreante, viagem da protagonista à terra de seus avós, a Turquia. Já Adriana reflete sua herança no título “Judite no país do futuro”, história de uma judia da Palestina e sua descendência no Brasil. Nesta entrevista, Armony, que participa da Fliporto 2010, cujo tema será literatura judaica, fala da coletânea e dos laços com o Judaísmo.
Envolvidas em projetos individuais que flertam com a herança judaica, a ideia de dialogar com esses autores, em livro, seria um desejo antigo seu e da Tatiana?
“Primos” surgiu da necessidade de mostrar a riqueza e a diversidade da herança árabe e judaica, além da proximidade entre duas culturas que, embora muitas vezes sejam vistas como opostas, tiveram berço semelhante. Numa época de conflitos territoriais que tendem à simplificação, queríamos criar um espaço onde essas culturas dialogassem e frutificassem. O livro revela esse desejo de reler e re-escrever histórias, apontando para um futuro em que existe espaço para imaginação e diálogo. Já existe uma importante tradição literária brasileira que trata ou provém da imigração e que nos diz não só sobre as culturas de origem, mas também sobre o Brasil, país tão multifacetado quanto antropofágico. Julgamos importante atualizar essa tradição. Tivemos a ideia praticamente ao mesmo tempo, sem que uma soubesse da outra. Não foi por acaso, já que a herança cultural está no horizonte das nossas preocupações e literatura.
Para além dos clichês atrelados aos dois povos, que pontos controversos a obra pode ajudar a elucidar?
O leitor vai conhecer um pouco de cada cultura, assim como os pontos de convergência entre árabes e judeus. O Brasil acolheu um número considerável de imigrantes árabes e judeus e, aqui, essas duas culturas têm convivido de forma harmoniosa. Um exemplo disso é a SAARA, no Rio de Janeiro, em que comerciantes das duas culturas convivem há algumas décadas. No entanto, o conhecimento desses povos é escasso. No caso dos árabes, há confusão em saber se libaneses e sírios são mesmo árabes; se cristãos podem ser árabes, ou apenas os muçulmanos. Nós esperamos que o livro possa desfazer esse tipo de confusão a partir de um mergulho nas tradições dessas culturas.
Quais os critérios para a escolha dos escritores da coletânea?
Os autores foram escolhidos com base na sua representatividade, qualidade e diversidade. Procuramos misturar escritores de diferentes gerações, desde os mais conhecidos até os menos conhecidos do grande público. Achamos importante estabelecer um equilíbrio entre autores de ascendência árabe e judaica. Assim, o livro contém 10 de cada.
Como se deu sua vivência na tradição judaica?
Não fui criada na tradição religiosa do Judaísmo, embora na minha infância tenha participado de muitos “Pessachs” (Páscoa) e “Rosh Hashanás” (Ano novo) em família. Adorava comer maçã com mel e raiz forte enquanto os adultos contavam a história de Moisés no Egito. Minha ligação com o Judaísmo passa mais pela tradição literária e intelectual. Passa também pela memória da minha avó paterna, Judite, uma pessoa fortíssima, que me ensinou rudimentos de hebraico e contava histórias da Torá.
Como esta herança se traduz na sua produção literária?
Em “Primos”, meu conto é sobre Espinosa, filósofo judeu do século 17, que influenciou filósofos como Nietzsche e cuja língua materna era o português. Sua família fugiu da Inquisição de Portugal e foi para Amsterdã. Em sua concepção, Deus era igual à natureza, e por isso foi considerado ateu. Ateísmo judaico, influenciado pela Cabala. Sua poderosa Ética descreve as paixões de forma racional e fascinante e propõe uma ética e uma beatitude diferentes, que não passam nem pela culpa nem pela religião. Já “Judite no país do futuro” dialoga com uma tradição judaica mais vasta. O romance se baseia nas histórias da minha avó Judite, mas também fiz muitas pesquisas.
Fonte: Folha de Pernambuco

